Os Museus Vaticanos
Os Museus do Vaticano representam uma das coleções de arte mais vastas e prestigiosas do mundo. Fundados pelo papa Júlio II no século XVI, ocupam grande parte do vasto pátio do Belvedere e expõem a enorme coleção de obras de arte acumulada ao longo dos séculos pelos papas. A Capela Sistina e os aposentos papais afrescados por Michelangelo e Rafael fazem parte das obras que os visitantes podem admirar em seu percurso.
Museum: Musei Vaticani
Introdução aos Museus Vaticanos
Os Museus Vaticanos representam um dos mais extraordinários complexos museais do mundo, guardiões de um patrimônio artístico e cultural que abrange milênios de história humana. Fundados no século XVI pelo Papa Júlio II e abertos ao público em 1771 por vontade do Papa Clemente XIV, os museus recebem hoje cerca de seis milhões e meio de visitantes por ano. O nosso percurso nos conduzirá por uma seleção das coleções mais significativas, das antiguidades egípcias às obras-primas renascentistas e à arte contemporânea. Caminharemos por corredores decorados com afrescos de tirar o fôlego, atravessaremos salas que viram a história se desenrolar entre suas paredes e nos encontraremos frente a frente com algumas das obras de arte mais célebres do mundo. De um ponto de vista cronológico, começaremos pelas antigas civilizações do Egito e da Etrúria, percorreremos em seguida as épocas grega e romana com suas monumentais esculturas, para concluir com o Renascimento italiano e a modernidade. O nosso itinerário culminará na celebérrima Capela Sistina, obra-prima absoluta de Michelangelo e símbolo universal da arte ocidental. Preparem-se para uma viagem à descoberta de um museu que encerra em si a história da humanidade e de sua eterna busca pela beleza.
Museu Gregoriano Egípcio
No coração dos Museus Vaticanos, nove salas abrigam uma extraordinária coleção de antiguidades egípcias, provenientes de Roma e da Villa Adriana em Tivoli. Ao entrar neste espaço, deixe-se transportar imediatamente às margens do Nilo, numa viagem que atravessa milênios de história. O Museu Gregoriano Egípcio foi fundado em 1839 pelo papa Gregório XVI, e suas salas reúnem objetos votivos, sarcófagos decorados, estátuas de divindades como Ísis e Osíris, e papiros escritos em hieróglifos. De particular interesse são os relevos provenientes de túmulos tebanos e as estátuas de faraós, testemunhos de uma civilização milenar. O museu inclui também uma seção dedicada à influência da cultura egípcia na Roma antiga, com exemplos de arte "egiptizante" e peças provenientes do santuário de Ísis no Campo de Marte. Passeando entre sarcófagos esculpidos, múmias envoltas em suas bandagens e papiros com inscrições hieroglíficas, não posso deixar de contar-lhes uma curiosa anedota. O imperador Adriano era tão fascinado pela cultura egípcia que em sua villa em Tivoli mandou construir um canal chamado "Canopo", em homenagem à cidade egípcia de mesmo nome. Havia cercado o canal de estátuas e peças egípcias, algumas das quais são precisamente as que podem ser admiradas hoje nestas salas. As três últimas salas abrigam, por sua vez, obras da antiga Mesopotâmia e da Assíria, ampliando assim nossa visão sobre as grandes civilizações do mundo antigo e seus intercâmbios culturais. Observe com atenção o "Livro dos Mortos" e a Coleção Grassi: são testemunhos preciosos que nos contam como os antigos egípcios concebiam a vida após a morte, um aspecto central de sua cultura que influenciou profundamente também o mundo romano.
Pátio da Pinha
Ao sair do Museu Egípcio, acede-se ao amplo e sugestivo Pátio da Pinha, um dos espaços abertos mais fascinantes dos Museus Vaticanos. Este elegante pátio renascentista deve o seu nome à grande escultura em bronze que domina o nicho a norte, no topo da escadaria projetada por Michelangelo: uma pinha monumental, símbolo de imortalidade e renascimento. A obra, datada da época romana, foi encontrada na Idade Média nas proximidades das Termas de Agripa e deu também o nome ao bairro da Pinha em Roma, que hoje engloba lugares emblemáticos como o Panteão e a Piazza Venezia. Mas qual é a história desta obra? Trata-se de uma fonte em bronze do século II d.C., com quase quatro metros de altura, que outrora jorrava água pelas suas escamas. Este icónico símbolo foi até citado por Dante na Divina Comédia. No Canto XXXI do Inferno, o poeta compara o rosto do gigante Nembrot precisamente a esta pinha. O pátio, redesenhado por Bramante no século XVI e posteriormente reestruturado por Pirro Ligorio, funciona hoje como ponto de ligação entre as diferentes secções dos museus. Em frente à pinha encontra-se outra escultura de grande importância: a "Esfera com Esfera" de Arnaldo Pomodoro, doada pelo artista ao museu em 1990. Esta escultura contemporânea cria um fascinante diálogo entre o antigo e o moderno: a esfera de bronze, de casca aparentemente perfeita mas rasgada por profundas fendas, revela no seu interior um mecanismo que gira movido pelo vento, metáfora do contínuo devir do mundo e do conhecimento humano. Reserve um momento para apreciar também as proporções arquitetónicas do pátio, projetado em época renascentista para ligar harmoniosamente as diferentes partes do complexo vaticano. Este espaço servia de área de passagem e de repouso para os ilustres visitantes do Papa, um lugar onde a arte clássica e a contemporânea se encontram.
Galeria Chiaramonti
Entramos agora na fascinante Galeria Chiaramonti, um longo corredor que recebe o nome do Papa Pio VII (nascido Barnaba Chiaramonti), que a fundou no início do século XIX. Esta galeria tem uma história particularmente interessante, ligada a um dos períodos mais turbulentos da história europeia. Em 1797, com o Tratado de Tolentino, o Estado Pontifício foi obrigado a ceder à França as maiores obras-primas do Museu Pio Clementino. Posteriormente, em 1815, graças ao Congresso de Viena e à ação diplomática do escultor Antonio Canova, foram recuperadas quase todas as obras de escultura confiscadas. O retorno das obras vaticanas da França é comemorado na luneta da parede XXI da galeria. O novo museu foi realizado pelo próprio Canova a partir de 1806. O Museu Chiaramonti, constituído por cerca de mil peças de escultura antiga, apresenta uma das mais expressivas coleções de retratos romanos, rica em exemplos de escultura ideal e funerária. Canova concebeu a exposição como uma "escola de escultura", onde cada obra pudesse dialogar com as demais num espaço harmonioso. Observe com atenção os bustos romanos alinhados ao longo das paredes. Cada um deles é um retrato realista de uma personagem que viveu há dois mil anos. Os romanos eram mestres na arte do retrato e, ao contrário dos gregos, que idealizavam as feições humanas, preferiam representar os seus modelos com todos os seus defeitos e particularidades. Um detalhe curioso: na galeria estão conservadas duas vigas de madeira recuperadas em 1827 do fundo do lago de Nemi, pertencentes às embarcações do imperador Calígula; é o que resta dos dois navios, posteriormente destruídos de forma lamentável pelos eventos da guerra em 1944. Um pequeno fragmento da história romana, salvo das águas e do tempo.
Braccio Nuovo
Prosseguimos agora em direção ao Braccio Nuovo, uma elegante galeria neoclássica que representa a terceira seção do Museu Chiaramonti. O Papa Pio VII confiou ao arquiteto romano Raffaele Stern a tarefa de construir esta estrutura. Com a morte de Stern em 1820, o trabalho foi continuado por Pasquale Belli até a inauguração em fevereiro de 1822. A instalação era supervisionada pela Comissão de Belas Artes, presidida por Antonio Canova e composta também por Filippo Aurelio Visconti e Antonio D'Este. A nova construção oitocentista, que pode ser considerada um dos mais significativos exemplos de arquitetura neoclássica em Roma, foi inserida entre as galerias do Museu Chiaramonti e as da Biblioteca Apostólica. Suas linhas puras e harmoniosas criam o cenário perfeito para abrigar algumas das mais importantes obras-primas da escultura clássica. Canova, inspetor-geral de todas as Belas Artes de Roma e do Estado Pontifício, utilizou este espaço para expor muitas esculturas cedidas à França em decorrência do Tratado de Tolentino de 1797, imposto por Napoleão Bonaparte ao Papa Pio VI Braschi ao término da Campanha da Itália, e restituídas posteriormente às decisões tomadas no Congresso de Viena de 1815. O pavimento é constituído por grandes lajes de mármore que emolduram mosaicos romanos, enquanto ao longo das paredes correm frisos em estuque. O edifício articula-se em uma galeria de 68 metros de comprimento, coberta por uma abóbada casetonada com claraboias; ao centro, de um lado abre-se em semicírculo, do outro uma série de degraus permite o acesso ao monumental pórtico que se debruça sobre o Pátio da Pinha. Entre as obras-primas mais conhecidas expostas nesta seção, destaca-se o Augusto de Prima Porta, representação do imperador em trajes militares, com o aspecto solene e idealizado típico da arte imperial. Ao seu lado, merece atenção especial a Personificação do Nilo, uma imponente estátua que hoje se encontra na exedra. A escultura representa o deus fluvial reclinado, rodeado por dezesseis putti: cada um deles simboliza um côvado, a unidade de medida que indicava a altura ideal da cheia do Nilo para garantir uma boa colheita. Este grupo escultórico, originalmente exposto no Pátio do Belvedere por vontade do Papa Leão X, foi provavelmente encontrado no Iseu Campense, o grande santuário do Campo de Marte dedicado ao culto egípcio de Ísis e Serápis, introduzido em Roma no século I a.C.
Museu Pio Clementino
O Museu Pio Clementino é um dos centros vitais da arte clássica nos Museus Vaticanos. Fundado na segunda metade do século XVIII pelos papas Clemente XIV e Pio VI, dos quais recebe o nome, foi concebido para guardar e expor as mais importantes esculturas antigas e renascentistas. Esta seção é composta por doze salas e abriga uma das mais significativas coleções de arte grega e romana do mundo. O percurso se desenvolve por ambientes de grande refinamento arquitetônico, como o fascinante Pátio Octogonal, outrora conhecido como Pátio das Estátuas. Foi precisamente aqui que, no início do século XVI, o papa Júlio II della Rovere organizou o primeiro núcleo das coleções pontifícias de esculturas antigas, com a ambição de fazer reviver a grandiosidade da Roma imperial na Roma dos papas. Quando, no século XVIII, Clemente XIV e Pio VI decidiram transformar aquela coleção em um museu propriamente dito, o pátio tornou-se o centro do novo projeto museológico. Entre as obras mais icônicas encontra-se o Apolo do Belvedere, cópia romana de um original grego atribuído a Leocares, símbolo do ideal de beleza clássica. Ao seu lado, outro incontestável obra-prima é o Grupo do Laocoonte, descoberto em 14 de janeiro de 1506 em um vinhedo próximo à basílica de Santa Maria Maior. O papa Júlio II, informado da descoberta, enviou Michelangelo Buonarroti e Giuliano da Sangallo para examiná-la. Foi justamente por recomendação deles que a escultura foi adquirida e, pouco depois, exposta ao público no Vaticano. A obra representa Laocoonte e seus filhos envoltos nas espirais de uma serpente marinha, numa cena de dramática intensidade que impressionou profundamente Michelangelo, o qual a definiu como "um milagre da arte". Esta descoberta teve um impacto enorme sobre o Renascimento, influenciando profundamente a arte da época, sobretudo na representação do corpo humano e da expressão emocional. O museu também guarda outras obras extraordinárias, como o Hércules em bronze dourado proveniente do Campo de' Fiori, o Apoxyomenos — o atleta que se limpa com o estrígilo — e uma refinada seleção de sarcófagos romanos decorados com cenas mitológicas.
Museu Gregoriano Etrusco
Deixamos agora as maravilhas da arte greco-romana para nos imergirmos na cultura de outro povo fascinante que habitou a península itálica antes dos romanos: os Etruscos. O Museu Gregoriano Etrusco, fundado pelo papa Gregório XVI em 1836, dispõe de oito galerias e abriga importantes peças provenientes das escavações arqueológicas realizadas nas cidades mais importantes da antiga Etrúria. Entre elas, vasos, sarcófagos, bronzes e a coleção Guglielmi. Com o fim do Estado Pontifício em 1870, o museu registrou apenas acréscimos esporádicos, porém de notável importância: a coleção Falcioni (1898), o acervo Benedetto Guglielmi (1935), a coleção Mario Astarita (1967) e o acervo Giacinto Guglielmi (1987). Uma das obras mais espetaculares do museu é, sem dúvida, a Biga arcaica, em bronze laminado e fundido, proveniente da propriedade de Roma Vecchia e descoberta por volta do final do século XVIII. Esta extraordinária carruagem cerimonial, puxada por dois cavalos (daí o nome "biga"), oferece-nos um raro vislumbre da vida aristocrática etrusca e de sua maestria no trabalho com os metais. Outro tesouro de valor inestimável é a célebre Fíbula da Tumba Regolini Galassi, uma joia em ouro conservada em uma sala decorada com Cenas da vida de Moisés e Aarão, afrescadas por Federico Barocci e pelos irmãos Federico e Taddeo Zuccari. Nessa sala está preservado o núcleo mais importante do acervo gregoriano, descoberto em uma escavação de 1836 na necrópole do Sorbo di Cerveteri. Nas salas encontra-se também uma esplêndida coleção de vasos tanto de produção etrusca quanto grega. De particular valor e interesse cultural é a ânfora ática de figuras negras criada por Exékias, que retrata Aquiles e Ájax jogando dados (cerca de 540-530 a.C.). Aqui se conservam ainda os afrescos originais do século XVI, entre os quais se destacam as obras de Federico Barocci e Federico Zuccari, além das de Santi di Tito e Niccolò Circignani, conhecido como il Pomarancio. De grande interesse também são as têmperas murais realizadas no final do século XVIII, que enriquecem ainda mais o aparato decorativo.
Galeria dos Candelabros
Continuamos o nosso itinerário e entramos na suntuosa Galeria dos Candelabros, um refinado corredor com mais de 80 metros de comprimento. Organizada pela primeira vez entre 1785 e 1788, durante o pontificado de Pio VI Braschi, a galeria foi completamente renovada no final do século XIX, sob o papa Leão XIII Pecci, a quem se deve o aspeto atual. O brasão papal incrustado no centro do pavimento testemunha ainda hoje essa intervenção. O projeto de remodelação foi confiado a Annibale Angelini, que contou com Domenico Torti e Ludwig Seitz para a decoração pictórica, e com Giuseppe Rinaldi e Luigi Medici para os esplêndidos mosaicos de mármore. A disposição das obras seguiu critérios de simetria, pensados para harmonizar-se com a arquitetura da galeria, à qual se acedia — e ainda hoje se acede — através de um monumental portão em bronze. A galeria deve o seu nome aos monumentais candelabros de mármore, combinados com colunas de mármore colorido, que pontuam as seis secções expositivas, intercaladas por arcadas e colunas. Os candelabros, na época romana, eram utilizados para iluminar templos, termas e residências patrícias. A sua elaborada decoração, com figuras mitológicas, motivos vegetais e animais, torna-os verdadeiros tesouros da escultura. Entre as peças mais evocadoras, detenha-se a admirar o sarcófago com as cenas do mito de Protesilau, datado de 170 d.C. e proveniente da Via Ápia. Trata-se de um extraordinário exemplo de arte funerária romana, que retrata a tocante história do herói grego, o primeiro a cair na guerra de Troia, a quem os deuses concederam o privilégio de regressar por um único dia ao mundo dos vivos, para rever a sua amada esposa.
Galeria das Tapeçarias
A Galeria das Tapeçarias é um dos ambientes mais fascinantes dos Museus Vaticanos. Com mais de 70 metros de comprimento, foi organizada no século XVI para acolher uma série de preciosas tapeçarias flamengas realizadas entre 1515 e 1521 a partir de cartões desenhados pela oficina de Rafael Sanzio. Encomendadas pelo papa Leão X, esses extraordinários manufatos retratam episódios extraídos dos Atos dos Apóstolos, entre os quais se destacam a "Pesca Milagrosa" e a "Morte de Ananias". A galeria foi renovada em 1838 com a inserção da série da Escola Nova, assim denominada para distingui-la da Escola Velha, exposta hoje na Pinacoteca Vaticana. As tapeçarias distinguem-se pela refinada técnica, pelo uso de fios de ouro e prata e pela precisa representação perspética. No lado esquerdo da galeria, seguindo em direção à Capela Sistina, podem-se admirar as tapeçarias flamengas realizadas na célebre manufatura de Pieter van Aelst, retratando cenas do Evangelho: a "Adoração dos Pastores", a "Apresentação de Jesus no Templo", o "Massacre dos Inocentes" (em duas variantes, uma com paisagem e outra com o Pantheon ao fundo), a "Ceia em Emaús", a "Aparição de Jesus a Santa Maria Madalena" e a "Ressurreição de Jesus Cristo". No lado direito, por sua vez, estão expostas as tapeçarias com Histórias da vida do papa Urbano VIII, datadas do século XVII e produzidas na manufatura Barberini de Roma. As tapeçarias eram consideradas uma das formas de arte mais prestigiosas e dispendiosas do Renascimento, frequentemente avaliadas até acima das pinturas. Pense-se que para a realização de cada peça eram necessários anos de trabalho por parte de mestres tecelões altamente especializados. A combinação de seda, lã, ouro e prata conferia a essas obras uma elegância e uma luminosidade únicas. Esta coleção constitui um dos núcleos mais antigos dos Museus Vaticanos e testemunha a histórica paixão dos pontífices pela arte da tapeçaria, iniciada já no século XV. Apesar das perdas devidas ao desgaste do tempo e aos saques napoleônicos, a coleção conservou alguns dos seus mais célebres tesouros, como a preciosa tapeçaria da Última Ceia inspirada no Cenáculo de Leonardo da Vinci, doada em 1533 pelo rei da França Francisco I ao papa Clemente VII. O Departamento de Tapeçarias e Têxteis dos Museus Vaticanos, instituído como seção autônoma em 2008, conduz estudos e pesquisas científicas, organiza congressos e exposições, e cuida do restauro, da proteção e da valorização deste extraordinário patrimônio artístico, em colaboração com estudiosos e instituições a nível nacional e internacional.
Galeria dos Mapas Geográficos
Continuando o nosso percurso, entramos na Galeria dos Mapas Geográficos. A imensa sala deixará você sem palavras: 120 metros de comprimento por 6 de largura. Uma incrível representação cartográfica da Itália no final do século XVI. A Galeria dos Mapas Geográficos está situada ao longo do percurso que conduz à Capela Sistina; é uma extraordinária representação cartográfica das Regiões da Itália, realizada entre 1581 e 1583. Foi o papa Gregório XIII Boncompagni quem ordenou a construção da galeria, e a obra foi executada por uma equipe de artistas, dirigida pelo matemático e geógrafo Ignazio Danti. Percorrer a galeria é, segundo as intenções de Ignazio Danti, como viajar ao longo da dorsal dos Apeninos de sul (partindo da Sicília) em direção ao norte (até o arco alpino) e contemplar a costa adriática, a leste, e a tirrênica, a oeste. Os mapas, baseados em levantamentos geodésicos inovadores para a época, mostram cidades, rios, montanhas e portos, acompanhados de vistas em perspectiva e surpreendentes detalhes topográficos. Na abóbada, afrescos de temática religiosa e alegórica completam a narrativa visual, celebrando a grandeza espiritual e política da Itália católica do século XVI. A galeria não é apenas uma obra-prima artística, mas também um instrumento de propaganda e identidade cultural: uma Itália unida sob o olhar da Igreja, mais de dois séculos antes de sua unificação política. Caminhar por este corredor significa fazer uma viagem pela Itália do Renascimento, entre arte, ciência e fé.
Galeria de São Pio V
Nesta seção, encontramo-nos na ala mais antiga dos Museus Vaticanos, precisamente nos Aposentos de São Pio V, um papa dominicano que reinou de 1566 a 1572 e que foi um dos protagonistas da Contrarreforma. Estes ambientes, transformados em espaços expositivos, oferecem uma interessante perspectiva sobre a arte sacra. A galeria foi concebida como espaço museológico já no século XIX e hoje abriga uma refinada coleção de tapetes orientais, majólicas medievais e renascentistas, e mobiliário litúrgico de grande valor. Os tetos destas salas são decorados com motivos heráldicos e cenas da vida de São Pio V, realizados após a sua canonização. Observe em particular os brasões papais com a águia e o dragão, elementos da heráldica do Papa Gregório XIII, sob cujo pontificado foram concluídas estas decorações. A coleção inclui também refinados exemplos de artes decorativas, entre os quais se destacam esplêndidos mosaicos miúdos, uma forma de arte especializada desenvolvida em Roma no século XVII, na qual minúsculos fragmentos de pedras duras e esmaltes coloridos compõem imagens de extraordinária precisão e beleza. Estas pequenas obras-primas, frequentemente montadas como joias ou ornamentos para móveis, demonstram a maestria dos artesãos romanos e o gosto sofisticado da corte papal.
Salas de Rafael
E chegamos agora a um dos momentos mais aguardados do nosso percurso: as célebres Salas de Rafael, conhecidas também como Salas Vaticanas. Estes ambientes, entre os mais icônicos dos Museus Vaticanos, são quatro salas magnificamente afrescadas por Rafael Sanzio e seus discípulos, e representam um dos pontos mais elevados do Renascimento italiano. Um episódio curioso acompanha o início deste extraordinário ciclo pictórico. Quando Rafael, com apenas vinte e cinco anos, chegou ao Vaticano em 1508 a convite do papa Júlio II, encontrou nessas mesmas salas outros artistas já a trabalhar, entre eles o Perugino, seu mestre. Contudo, o jovem urbinate impressionou profundamente o pontífice com o seu primeiro afresco, a extraordinária Disputa do Sacramento, tanto que Júlio II ordenou a eliminação dos trabalhos preexistentes e confiou a Rafael a decoração integral das salas. A primeira e talvez mais célebre é a Sala da Segnatura, que abriga alguns dos maiores trabalhos do pintor: além da já mencionada Disputa do Sacramento, dedicada à teologia, encontra-se ali a célebre Escola de Atenas, alegoria da filosofia clássica. No centro do afresco vemos Platão e Aristóteles, rodeados por uma série de filósofos e cientistas da Antiguidade. Rafael, com grande originalidade, atribuiu os rostos de ilustres contemporâneos a muitas das personagens: Platão tem as feições de Leonardo da Vinci, Euclides as de Bramante, e Heráclito evoca Michelangelo. Num canto, entre as personagens à direita, reconhece-se também o autorretrato do próprio Rafael, que se insere na cena como testemunha do seu tempo. Prosseguindo, encontramos a Sala do Incêndio do Borgo, realizada em grande parte pelos discípulos do mestre após a sua morte. As cenas representam episódios históricos ligados à Igreja e ao papado, com um estilo que une grandiosidade narrativa e atenção ao detalhe. Encerra o ciclo a Sala de Constantino, executada inteiramente pela oficina de Rafael, que celebra a vitória do cristianismo sobre o império romano pagão. As suas amplas superfícies murais retratam eventos cruciais como a Batalha da Ponte Mílvia e a Visão da Cruz, numa linguagem pictórica solene e celebrativa.
Coleção de Arte Contemporânea
Prosseguimos a nossa viagem pelos Museus Vaticanos com uma coleção que surpreende pela sua riqueza e modernidade: a Coleção de Arte Contemporânea, que compreende cerca de 8.000 obras entre pinturas, esculturas, desenhos e gravuras. Aqui encontram-se obras-primas de artistas de renome mundial como Henri Matisse, Marc Chagall, Salvador Dalí, Francis Bacon, Giorgio de Chirico, Carlo Carrà e Lucio Fontana. Particularmente relevante é o núcleo dedicado aos esboços para a Capela do Santíssimo Sacramento e à célebre Capela do Rosário de Vence, doada por Matisse. Esta coleção, curada por Micol Forti, foi inaugurada oficialmente em 23 de junho de 1973, mas tem as suas raízes no pontificado do papa Paulo VI. O Papa concebeu a ideia de um museu não como um "soberbo e magnífico cemitério" de obras de arte, mas como um organismo vivo e em contínua evolução. O percurso expositivo desenvolve-se nos Apartamentos Apostólicos, desde o Apartamento Bórgia afrescado por Pinturicchio até à Sala Marescalcia e às pequenas salas do século XV que conduzem à Capela Sistina. Entre as obras mais tocantes destaca-se a "Pietà" de Van Gogh, uma obra tardia que expressa toda a profundidade espiritual do artista holandês. De forte impacto é também o "Study for Velasquez Pope II" de Francis Bacon, uma reinterpretação poderosa e inquietante do célebre retrato do Papa Inocêncio X realizado por Velázquez. Esta secção testemunha a abertura da Igreja à arte moderna, entendida não apenas como expressão estética, mas como autêntica pesquisa espiritual. Não se trata de uma simples exposição, mas de um verdadeiro percurso que investiga o sentido do sagrado na arte do século XX, superando as diferenças estilísticas e teológicas.
Apartamentos Bórgia
O nosso itinerário continua com a visita aos Apartamentos Bórgia, ambientes historicamente ligados a Rodrigo de Borja y Doms — italianizado como Bórgia — eleito papa com o nome de Alexandre VI. O seu pontificado, que durou de 1492 a 1503, foi marcado por acontecimentos de grande relevância, como a descoberta da América e o Jubileu de 1500, e a sua figura permanece indissoluvelmente ligada a esta parte da residência papal. Os Apartamentos Bórgia são compostos por seis majestosos ambientes: as Salas das Sibilas e do Credo, situadas na Torre Bórgia; as Salas das Artes Liberais, dos Santos e dos Mistérios, na ala edificada por Nicolau V; e, por fim, a Sala dos Pontífices, que se encontra na parte mais antiga, remontando à época de Nicolau III. Hoje, estes espaços acolhem uma parte da Coleção de Arte Moderna e Contemporânea dos Museus do Vaticano, inaugurada por Paulo VI em 1973. Ao longo dos séculos, os Apartamentos Bórgia tiveram diversas destinações: foram a residência de importantes "cardeais-sobrinhos", entre os quais o célebre São Carlos Borromeu, sobrinho de Pio IV; posteriormente tornaram-se a Pinacoteca de Pio VII em 1816 e, mais tarde, a biblioteca do cardeal Mai. Foi apenas no final do século XIX, graças a uma restauração radical promovida por Leão XIII, que os apartamentos foram abertos ao público. Um episódio curioso diz respeito à decoração destes ambientes, conhecidos também como "quartos secretos": entre 1492 e 1494, Pinturicchio, juntamente com os seus discípulos — entre os quais Benedetto Bonfigli, Pietro da Volterra, Tiberio d'Assisi e Antonio da Viterbo, chamado il Pastura — realizou os afrescos que ainda hoje adornam as suas paredes. Após a morte de Alexandre VI, porém, nenhum papa voltou a habitar estes espaços; a residência foi reservada aos cardeais-sobrinhos, entre os quais o próprio São Carlos Borromeu, Secretário de Estado e sobrinho de Pio V. Na Sala dos Santos, sugiro que observem com atenção o teto, um unicum no interior dos Apartamentos Bórgia. Diferentemente dos outros ambientes, aqui não existe uma decoração pictórica, mas um refinado trabalho em estuque dourado, articulado em duas abóbadas. No centro de cada abóbada destacam-se as insígnias de Alexandre VI, encerradas num sol radiante. Sobre a porta encontra-se uma Madonna com o Menino que — segundo um testemunho de Vasari — foi erroneamente identificada com Giulia Farnese, famosa amante do papa. Nesta sala coexistem temas inspirados na Antiguidade clássica e pagã e histórias extraídas do Antigo e do Novo Testamento, num diálogo iconográfico muito sugestivo. Entre as lunetas, merece especial atenção a da parede do fundo, dedicada à Disputa de Santa Catarina de Alexandria. A cena desenrola-se aos pés de um imponente arco do triunfo, modelado sobre o Arco de Constantino, e encimado por um touro, símbolo heráldico da família Bórgia. A presença recorrente do touro sublinha a vontade de Alexandre VI de associar a sua imagem à de um poder forte, carismático e autoritário.
Capela Sistina
A Capela Sistina é uma das maiores obras-primas da arte ocidental e um dos lugares mais simbólicos da Igreja Católica. Construída entre 1475 e 1481 por encomenda do papa Sisto IV della Rovere, foi projetada por Baccio Pontelli e executada por Giovannino de' Dolci, ampliando uma antiga capela medieval preexistente. Segundo a tradição, as suas dimensões — 40,9 metros de comprimento, 13,4 de largura e 20,7 de altura — reproduzem as do Templo de Salomão descrito na Bíblia. A arquitetura é simples e solene, concebida para acolher as celebrações pontifícias mais importantes. A decoração quatrocentista das paredes laterais, confiada a uma equipe de grandes mestres do século XV como Sandro Botticelli, Pietro Perugino, Domenico Ghirlandaio, Cosimo Rosselli e suas oficinas, foi realizada entre 1481 e 1482. Ela compreende dois ciclos paralelos de afrescos: um dedicado à Vida de Moisés (paredes sul, lado da entrada), o outro à Vida de Cristo (paredes norte, lado da entrada), sublinhando a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. A faixa inferior é decorada com falsas cortinas pintadas em damasco, enquanto na parte superior encontram-se os retratos dos Pontífices. Para completar a decoração, a abóbada era originalmente pintada com um céu estrelado por Pier Matteo d'Amelia. Em 15 de agosto de 1483, o papa Sisto IV consagrou a Capela, dedicando-a à Assunção. Foi, porém, Júlio II della Rovere, seu sobrinho, quem transformou profundamente a Sistina: em 1508, confiou a Michelangelo Buonarroti a tarefa de afrescar a abóbada, que até então conservava o céu estrelado. Michelangelo trabalhou sozinho, entre grandes dificuldades, sobre um andaime especialmente projetado, realizando um ciclo de afrescos que cobre cerca de 500 metros quadrados e representa nove episódios do Gênesis, agrupados em três temas principais: a Criação do mundo, a Criação do homem e da mulher, e a Queda com o Dilúvio Universal. Entre as cenas mais célebres destaca-se a "Criação de Adão", na qual os dedos de Deus e do homem se tocam num gesto que se tornou icônico. Entre 1536 e 1541, por vontade do papa Clemente VII e depois de Paulo III, Michelangelo pintou a parede do altar com o monumental Juízo Final. Este extraordinário afresco representa a segunda vinda de Cristo e o julgamento final, inspirado nos textos do Novo Testamento. A obra, à época, suscitou escândalo pela presença de figuras nuas, que foram posteriormente cobertas em parte por Daniele da Volterra, apelidado de "Il Braghettone", após o Concílio de Trento. Com esta decoração, a Capela Sistina afirma-se como "o santuário da teologia do corpo humano", segundo as palavras de João Paulo II. Durante a segunda metade do século XVI foram refeitos também os afrescos da parede de entrada, danificados por um desabamento em 1522: Hendrik van den Broeck repintou a "Ressurreição de Cristo" de Ghirlandaio, enquanto Matteo da Lecce restaurou a "Disputa sobre o corpo de Moisés" de Signorelli. Entre 1979 e 1999, a Capela Sistina foi submetida a uma restauração completa, que abrangeu também os elementos em mármore, como a cantoria, a grade divisória e o brasão de Sisto IV. Hoje, a Sistina não é apenas uma obra-prima artística, mas permanece o coração pulsante da vida da Igreja: aqui se celebra o Conclave, a eleição secreta do Sumo Pontífice, e outras importantes celebrações pontifícias.
Museus da Biblioteca Apostólica
A Biblioteca Apostólica Vaticana, uma das mais antigas e prestigiosas do mundo, representa a principal guardiã do patrimônio manuscrito da Igreja. Sua fundação oficial remonta a 1475, sob o papa Sisto IV, mas suas origens se entrelaçam com a época do papa Nicolau V (1447–1455), que primeiro concebeu a ideia de uma biblioteca pública do papado. O patrimônio exposto ao público constitui apenas uma parte do vastíssimo acervo, que conta com mais de 80.000 manuscritos, mais de 8.000 incunábulos — isto é, livros impressos antes de 1501 — e centenas de milhares de volumes raros e modernos. Entre os tesouros expostos destacam-se: manuscritos iluminados medievais e renascentistas de grande valor artístico; códices bíblicos como o célebre Codex Vaticanus, uma das mais antigas versões completas em grego da Bíblia; mapas antigos e desenhos cartográficos medievais; e documentos históricos únicos, entre os quais cartas papais e textos em línguas antigas como hebraico, siríaco, árabe, armênio, persa e chinês. O coração monumental da Biblioteca é representado pela Sala Sistina, realizada entre 1587 e 1589 segundo projeto de Domenico Fontana, por vontade de Sisto V. Esta grande sala retangular, dividida em duas naves, é decorada com esplêndidos afrescos que celebram a cultura e a fé cristã através da história da escrita. Embora a maior parte do material seja reservada à consulta dos estudiosos, o percurso museológico permite apreciar o valor da palavra escrita como instrumento fundamental para a transmissão do saber, não apenas religioso, mas também científico, literário e humanístico.
Pavilhão das Carruagens
O Pavilhão das Carruagens, também conhecido como "Museu Histórico dos Meios de Transporte", foi criado em 1973 por iniciativa do papa Paulo VI com o objetivo de documentar a história dos transportes pontifícios e o cerimonial relacionado às deslocações dos Papas. Localiza-se nos subterrâneos do Palácio do Belvedere e integra o Museu Histórico do Vaticano. O núcleo central da coleção, inaugurada oficialmente em 1973, é constituído pela magnífica Berlinda de Grande Gala construída em Roma em 1826, durante o pontificado de Leão XII. Trata-se de um elegante veículo em madeira entalhada e dourada, revestido a veludo vermelho, destinado às procissões solenes. A seu lado, encontram-se expostas nove berlindas cerimoniais pertencentes a Pontífices ou a príncipes da Santa Igreja Romana. Além das carruagens de "protocolo", o museu expõe duas históricas berlindas de viagem: uma utilizada por Pio IX no seu regresso do exílio após os movimentos revolucionários da República Romana, e outra para a última viagem como "Papa Rei". A coleção inclui também liteiras, trajes de corte e arreios para cavalos, que constituem um precioso testemunho histórico da mobilidade pontifícia. O Pavilhão ilustra ainda a transformação e o progresso dos meios de transporte pontifícios com a chegada dos primeiros automóveis. A entrada do primeiro automóvel no Vaticano, um Bianchi Tipo 15 oferecido ao Papa pela Associação das Mulheres Católicas de Milão, ocorreu pouco após o início do pontificado de Pio XI. Foi, porém, com a assinatura dos Pactos de Latrão em 1929 que as principais marcas automobilísticas internacionais começaram a competir para oferecer os seus melhores veículos ao pontífice. De particular relevância é também a cadeira gestatória, utilizada até ao pontificado de João Paulo I para transportar o Papa nos ombros dos sediari, símbolo da cerimônia e da realeza papal antes de ser substituída pela mais moderna papamóvel. O Pavilhão das Carruagens reflete não apenas a evolução técnica dos meios de transporte, mas também a transformação do papado: de figura cerimonial, frequentemente inacessível, a uma presença dinâmica e próxima do povo, sobretudo a partir do século XX.
Pinacoteca
A Pinacoteca Vaticana é uma das mais importantes galerias de arte do mundo. Foi inaugurada em 27 de outubro de 1932 por vontade do papa Pio XI, que confiou ao arquiteto Luca Beltrami o projeto de um edifício especialmente construído no interior do oitocentista Jardim Quadrado, uma área isolada e completamente cercada por alamedas. Essa escolha foi motivada pelo desejo de garantir as melhores condições de luz natural, fundamentais tanto para a correta conservação das pinturas quanto para sua valorização estética ideal. A realização da Pinacoteca Vaticana resolveu definitivamente a antiga questão da exposição das obras pictóricas, que até então haviam sido continuamente deslocadas pelos Palácios Apostólicos, desprovidos de uma sede adequada à sua relevância. A história da coleção tem suas raízes no século XVIII: uma primeira reunião de 118 pinturas de valor foi constituída por volta de 1790 pelo papa Pio VI, mas teve vida breve. Com efeito, após o Tratado de Tolentino de 1797, muitas das obras-primas foram transferidas para Paris. A ideia de uma pinacoteca moderna, concebida como exposição permanente e aberta ao público, tomou forma apenas em 1817, após a queda de Napoleão e a restituição à Santa Sé de numerosas obras, graças às decisões do Congresso de Viena. Desde então, a coleção foi progressivamente enriquecida por doações e aquisições, chegando hoje a um núcleo de cerca de 460 pinturas, distribuídas em dezoito salas organizadas segundo critérios cronológicos e de escola artística, que vão dos Primitivos dos séculos XII e XIII até o século XIX. Ao visitar a Pinacoteca, é possível admirar autênticas obras-primas da pintura italiana, como a célebre "Transfiguração" de Rafael, última obra do artista, que se distingue pela sua intensidade luminosa e potência compositiva. Impressiona também o "São Jerônimo" de Leonardo da Vinci, pintura inacabada mas emblemática do gênio leonardesco, com seu estudo anatômico e a expressividade dos rostos. A intensidade dramática da "Deposição de Cristo" de Caravaggio, com seu contraste entre luz e sombra, deixa uma impressão indelével. Ao lado dessas obras, a coleção inclui trabalhos de artistas fundamentais como Giotto, Beato Angélico, Melozzo da Forlì, Perugino, Ticiano, Veronese, Guido Reni, Poussin, Murillo, Sassoferrato e muitos outros. A Pinacoteca abriga ainda retábulos, polípticos e ícones que representam oito séculos de arte sacra, em um contínuo diálogo com a fé cristã.
Museu Gregoriano Profano
O Museu Gregoriano Profano, hoje parte dos Museus Vaticanos, conserva uma vasta coleção de antiguidades clássicas de época grega e romana. Foi fundado em 16 de maio de 1844 pelo papa Gregório XVI no Palácio Apostólico de Latrão, com o objetivo de reunir e valorizar os achados arqueológicos provenientes de escavações no Estado Pontifício, em particular de áreas como Roma, Cerveteri, Veio e Óstia. Além dos materiais arqueológicos, o museu acolheu também muitas obras já guardadas nos depósitos pontifícios. Na década de 1960, por vontade do papa João XXIII, todas essas coleções foram transferidas para o Vaticano. O novo edifício museológico, projetado pelo estúdio Passarelli, foi inaugurado em 1970 pelo papa Paulo VI. A arquitetura privilegia a luz natural, graças a amplas janelas envidraçadas e claraboias, enquanto as paredes modulares em grades metálicas permitem organizar os espaços de forma flexível, mantendo uma disposição baseada na origem das obras. O percurso expositivo divide-se em cinco seções, que ilustram a evolução da arte clássica desde a Grécia antiga até o período tardio do Império Romano. Começa com esculturas gregas originais, como estelas funerárias, relevos votivos e fragmentos arquitetônicos. Prossegue com uma seção dedicada às cópias romanas de obras gregas, entre as quais retratos e esculturas ideais. Por fim, o museu apresenta esculturas e sarcófagos romanos datados dos primeiros séculos do Império, dispostos em ordem cronológica. Entre as peças mais conhecidas encontram-se a Estátua de Sófocles, uma cópia romana em mármore de um original grego em bronze, encontrada em Terracina em 1839 e doada a Gregório XVI; a Nióbide Chiaramonti, cópia romana em mármore de uma obra atribuída a Escopas ou Praxíteles, proveniente do Templo de Apolo Sosiano em Roma; e o retrato em mármore de Cleópatra VII, datado entre 50 e 30 a.C. A coleção inclui ainda bustos, aras votivas e outras esculturas romanas datáveis entre os séculos I e III d.C. No final do século XIX foi acrescentada também uma seção dedicada à epigrafia pagã, ampliando ainda mais o patrimônio exposto. A entrada do museu encontra-se no interior da Pinacoteca Vaticana, na direção do vestíbulo de entrada dos Museus Vaticanos. O Museu Gregoriano Profano oferece assim uma fascinante viagem pela arte, pela cultura e pela história funerária da Antiguidade clássica.
Museu Pio Cristão
O Museu Pio Cristão foi fundado em 1854 pelo papa Pio IX, poucos anos após a criação da Comissão de Arqueologia Sagrada, instituída para coordenar as escavações nas catacumbas romanas. O museu nasceu com o objetivo de reunir e conservar os achados paleocristãos que não podiam ser deixados no local. Os primeiros arranjos expositivos foram organizados por dois pioneiros da arqueologia cristã, o padre Giuseppe Marchi e Giovanni Battista de Rossi, e o museu teve sua primeira sede no Palácio do Latrão. Em 1963, por iniciativa do papa João XXIII, as coleções foram transferidas para o Vaticano, para um novo edifício projetado pelo escritório Passarelli, já responsável pela ampliação do Museu Gregoriano Profano. A nova exposição foi inaugurada em 1970 pelo papa Paulo VI. O museu concentra-se na arte paleocristã entre os séculos II e V d.C., com uma coleção única de estátuas, sarcófagos, inscrições, mosaicos e outros artefatos provenientes principalmente das catacumbas romanas. As obras expostas narram a vida, a fé e a cultura da primeira comunidade cristã. O percurso articula-se em duas seções principais. A primeira exibe monumentos escultóricos, arquitetônicos e musivos, com uma extraordinária coleção de sarcófagos organizados por temas iconográficos e cenas bíblicas, seguindo um critério didático e cronológico. A segunda seção é dedicada ao material epigráfico, organizado por época e temática, acessível sobretudo aos estudiosos mediante solicitação. Entre os achados mais emblemáticos destaca-se a estatueta do Bom Pastor, datada do início do século IV d.C. Trata-se de uma reelaboração setecentista obtida a partir da transformação de um fragmento de sarcófago em uma escultura em vulto pleno, com o acréscimo das partes faltantes. A imagem do pastor que carrega o cordeiro sobre os ombros representava para os cristãos a iconografia de Cristo como "bom pastor", figura central no Evangelho. Outras peças importantes são o Sarcófago da Via Salária, decorado com imagens do pastor e do orante, e o Sarcófago de Jonas, que representa cenas bíblicas ligadas à salvação e à ressurreição. Os sarcófagos cristãos do museu são não apenas obras-primas da arte funerária, mas também preciosos testemunhos das primeiras crenças cristãs sobre a vida após a morte. Decorados com símbolos como o peixe, a cruz e cenas do Novo Testamento, muitos apresentam inscrições que fornecem informações históricas sobre os falecidos e sobre as comunidades cristãs da época.