Nas Pegadas dos Santos: Uma Peregrinação Espiritual na Basílica de São Pedr
Itinerário espiritual pensado para os peregrinos
Museo: Basilica di San Pietro
Atenção: possível alteração no percurso da visita
Bem-vindo à Basílica de São Pedro, coração espiritual do cristianismo e símbolo universal da fé católica. Este itinerário o acompanhará na descoberta de sua história, de sua majestosa arquitetura e das obras de arte que a transformam em um dos locais mais visitados do mundo. Lembra-se que, por ocasião do Ano Jubilar, o acesso a algumas áreas pode sofrer variações ou limitações temporárias. Recomendamos verificar possíveis atualizações nos pontos de informação oficiais ou no site do Vaticano, para planejar da melhor forma possível sua visita.
Introduçã
Introduçã
Bem-vindos, caros peregrinos, a esta viagem espiritual através do coração pulsante da cristandade. A Basílica de São Pedro não é simplesmente um edifício majestoso ou uma obra-prima arquitetônica; é um lugar onde o tempo parece suspender-se, onde cada pedra conta uma história de fé milenar, onde os santos ainda caminham entre nós através de suas relíquias, suas imagens, seus milagres. Erguida no local do martírio e sepultamento do apóstolo Pedro, primeiro bispo de Roma e pedra fundamental da Igreja, esta basílica representa o centro visível da unidade católica no mundo. Neste Ano Santo de 2025, a sua peregrinação adquire um significado ainda mais profundo. O Jubileu, na tradição católica, é um tempo de purificação, de renovação espiritual, de reconciliação com Deus e com os irmãos. Ao atravessar a Porta Santa, vocês estão realizando um gesto tão antigo quanto a fé, um gesto que simboliza a passagem da vida terrena para a espiritual, do pecado para a graça. Enquanto nos preparamos para empreender este caminho "Nas Pegadas dos Santos", deixem que suas almas se abram para a maravilha, a beleza, o mistério. Nestes noventa minutos, percorreremos juntos um itinerário não apenas físico, mas sobretudo espiritual, tocando quinze lugares significativos que nos falarão de fé, esperança, caridade, e do amor infinito de Deus que se manifesta através de seus santos.
A Praça e o Colunato de Bernin
A Praça e o Colunato de Bernin
Estamos aqui, no centro da grandiosa Praça de São Pedro, abraçados pela magnífica colunata de Bernini -- um abraço de pedra que simboliza os braços da Igreja que acolhe todos os seus filhos. Gian Lorenzo Bernini concebeu esta praça elíptica entre 1656 e 1667, sob o pontificado de Alexandre VII, não apenas como uma obra-prima artística, mas como uma poderosa metáfora visual da acolhida universal da Igreja. Observem as 284 colunas dispostas em quatro fileiras que criam este espaço sagrado. Bernini as descreveu como "os braços maternos da Igreja" que se estendem para acolher os fiéis de todo o mundo. Há uma magia particular neste lugar: posicionem-se em um dos dois focos da elipse, marcados por discos de pórfiro nos lados da praça, e observem como as quatro fileiras de colunas se alinham perfeitamente, reduzindo-se à aparência de uma única fileira -- um verdadeiro milagre de perspectiva que muitos interpretam como símbolo da unidade na diversidade da Igreja universal. Agora, levantem o olhar para as 140 estátuas de santos que coroam a colunata, cada uma com quase quatro metros de altura. Esses santos não são meras decorações; são os testemunhos da fé, aqueles que nos precederam no caminho e agora vigiam os peregrinos que chegam à Basílica. Bernini quis representar a "comunhão dos santos" que une a Igreja terrena com a celestial. No centro da praça ergue-se o obelisco egípcio, trazido a Roma pelo imperador Calígula em 37 d.C. e colocado aqui por ordem do Papa Sisto V em 1586. Uma curiosidade: durante o delicadíssimo transporte e elevação do obelisco, foi imposto silêncio absoluto a toda a praça sob pena de morte. Mas quando as cordas que levantavam o enorme monólito começaram a ceder devido ao atrito, um marinheiro genovês, Benedetto Bresca, gritou "Água nas cordas!", salvando assim a operação. Em vez de ser punido, foi premiado pelo Papa com o privilégio de fornecer as palmas para o Domingo de Ramos em São Pedro. Antes de entrar na Basílica, vamos nos dar um momento para uma reflexão espiritual. Este vasto espaço, que pode conter até 300.000 pessoas, nos lembra que a Igreja é universal, aberta a todos, sem distinções. Como disse o Papa Francisco: "A Igreja não é uma alfândega, é a casa paterna onde há lugar para cada um com sua vida trabalhosa." Agora, caminhemos em direção à imponente fachada da Basílica, obra de Carlo Maderno concluída em 1614. Enquanto avançamos, lembrem-se de que qualquer pessoa que tenha perguntas ou curiosidades pode ativar a qualquer momento um guia turístico virtual baseado em inteligência artificial. Dirijamo-nos agora para a Porta Santa, nosso segundo ponto de interesse nesta peregrinação jubilar.
A Porta Sant
A Porta Sant
Aqui estamos diante da Porta Santa, um dos símbolos mais poderosos do Ano Jubilar. Esta porta, normalmente murada, é aberta apenas durante os Anos Santos, quando o Papa cerimoniosamente quebra o muro que a sela, permitindo que os peregrinos a atravessem como um sinal de conversão e renovação espiritual. A passagem por esta porta representa um momento fundamental da peregrinação jubilar: simboliza a transição do pecado para a graça, das trevas para a luz. A tradição da Porta Santa começou oficialmente em 1423, quando o Papa Martinho V estabeleceu a cerimônia de abertura para o Jubileu de 1425. A porta que você vê hoje, no entanto, é moderna, feita em bronze pelo escultor Vico Consorti para o Jubileu de 1950, sob o pontificado de Pio XII. Seus painéis ilustram momentos de redenção e misericórdia retirados da Bíblia: da expulsão do Paraíso terrestre ao retorno do filho pródigo, da missão confiada a Pedro até a segunda vinda de Cristo. Um detalhe comovente diz respeito ao ritual de abertura: o Papa bate três vezes com um martelo de prata pronunciando "Aperite mihi portas iustitiae" (Abri-me as portas da justiça). Por trás deste gesto há uma história tocante. Durante o Jubileu de 1825, o Papa Leão XII estava tão fraco e doente que teve de ser amparado enquanto realizava este gesto ritual. No entanto, ele insistiu em completar pessoalmente a cerimônia, testemunhando a profunda importância espiritual deste momento. Atravessar esta porta significa participar de um rito de purificação espiritual que remonta aos tempos antigos. No livro de Ezequiel, lê-se sobre uma porta do templo que "permanece fechada" e através da qual "apenas o Senhor, o Deus de Israel, entrará" (Ez 44,2). A tradição cristã vê nesta porta um símbolo do próprio Cristo, que disse: "Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo" (Jo 10,9). Ao atravessar este limiar sagrado, lembrem-se das palavras de São João Paulo II: "Ao cruzar a Porta Santa, cada um deve sentir que entra no coração misericordioso de Deus, como o filho pródigo quando retorna à casa do Pai." Cada peregrino é convidado a deixar fora desta porta os pesos do passado, os ressentimentos, as feridas, e a entrar com um coração renovado, pronto para receber a graça do Jubileu. Agora, depois de atravessar a Porta Santa, voltemos nosso olhar para a direita. Ali, a pouca distância, nos espera uma das obras mais tocantes da arte cristã: a Pietà de Michelangelo. Deixemo-nos atrair por sua beleza e por sua profunda mensagem espiritual.
A Pietà de Michelangelo
A Pietà de Michelangelo
Parando-nos diante desta extraordinária escultura em mármore branco de Carrara, encontramos um dos momentos mais intensos e comoventes da história da salvação: Maria segurando nos joelhos o corpo sem vida de seu filho Jesus, recém-descido da cruz. A Pietà de Michelangelo, esculpida quando o artista tinha apenas 24 anos, entre 1498 e 1499, é a única obra que leva sua assinatura. Observem, de fato, a faixa que atravessa o peito da Virgem, onde Michelangelo gravou: "MICHAELA[N]GELUS BONAROTUS FLORENTIN[US] FACIEBA[T]" (Michelangelo Buonarroti, florentino, fazia [esta obra]). Há uma história fascinante ligada a esta assinatura. Conta-se que Michelangelo, após terminar a escultura, ouviu algumas pessoas atribuí-la a outro artista lombardo. Naquela mesma noite, tomado pela indignação, voltou com uma lâmpada e gravou seu nome na faixa que atravessa o peito de Maria — um gesto do qual mais tarde se arrependeria, prometendo nunca mais assinar suas obras. Observem a extraordinária maestria técnica: o rosto sereno de Maria, que parece jovem apesar da dor; a perfeição anatômica do corpo de Cristo; o drapeado das vestes que parece quase tecido real. Mas além da perfeição estética, detenham-se no profundo significado teológico da obra. A juventude do rosto de Maria, que surpreendeu muitos ao longo dos séculos, é uma escolha deliberada do artista. Quando lhe perguntaram por que representou a mãe de Jesus tão jovem, Michelangelo respondeu que "a castidade da alma preserva também a frescura do rosto" e que a Virgem, sendo sem pecado, não envelhecia como as outras mulheres. Notem também a composição piramidal, que culmina no rosto de Maria. Seu olhar está abaixado, contemplativo, em uma dor contida que expressa uma fé profunda. Suas mãos contam duas histórias: a direita, que sustenta com força o corpo de Cristo, expressa sua determinação materna; a esquerda, aberta em um gesto de oferta, parece apresentar ao mundo o sacrifício do Filho. Em 1972, esta sublime obra de arte foi alvo de um ato de vandalismo: um geólogo mentalmente perturbado, Laszlo Toth, a golpeou com um martelo ao grito de "Eu sou Jesus Cristo ressuscitado!". A obra foi restaurada com fragmentos recuperados e mármore do mesmo tipo, e hoje está protegida por um vidro à prova de balas. Diante desta Pietà, muitos peregrinos param em oração, meditando sobre a dor de Maria e o sacrifício de Cristo. Como escreveu o poeta Rilke: "A beleza não é senão o primeiro toque do terror que ainda podemos suportar". Aqui, beleza e dor se fundem em uma unidade transcendente que fala diretamente ao coração do crente. Enquanto deixamos esta visão de sofrimento e esperança, dirigimos agora nossos passos para a nave direita da Basílica, onde nos espera outro encontro especial: a estátua de São Pedro no trono, com o pé desgastado pelos beijos dos fiéis através dos séculos. Sigamos o fluxo dos peregrinos e mantenhamo-nos à direita.
A Estátua de São Pedro no Tron
A Estátua de São Pedro no Tron
Aqui estamos em um dos encontros mais pessoais e diretos com o primeiro dos apóstolos: a estátua de São Pedro no trono. Esta imponente escultura em bronze, datada da segunda metade do século XIII, é atribuída a Arnolfo di Cambio, embora alguns estudiosos afirmem que possa ser ainda mais antiga, remontando até o século V. Observem como Pedro é representado sentado em um trono, com a mão direita levantada em sinal de bênção e na esquerda as chaves do Reino dos Céus, símbolo do poder de "ligar e desligar" confiado a ele por Cristo. O detalhe mais famoso desta estátua é certamente o pé direito, visivelmente desgastado pelo toque e pelos beijos de milhões de peregrinos ao longo dos séculos. Este gesto de devoção é uma das tradições mais antigas e tocantes da Basílica. Beijar o pé de São Pedro é uma forma de expressar a própria conexão com o primeiro bispo de Roma, reconhecendo a continuidade apostólica que, através dos sucessores de Pedro, chega até os nossos dias. Uma curiosidade: durante as celebrações solenes, a estátua é vestida com paramentos pontifícios, incluindo a tiara (a coroa papal de três níveis) e uma rica capa. Esta tradição, que remonta a centenas de anos, transforma a antiga escultura em uma imagem viva do primeiro Papa, criando uma ponte visual entre o passado e o presente. Olhando para este bronze polido pelo toque de inúmeras mãos, refletimos sobre o significado de Pedro na vida da Igreja. Este homem, que Jesus chamou de "rocha", era na verdade cheio de contradições: impetuoso mas temeroso, o primeiro a reconhecer a divindade de Cristo mas também capaz de negá-lo três vezes. Sua humanidade imperfeita nos lembra que a santidade não consiste em ser sem defeitos, mas em deixar-se continuamente transformar pelo amor de Deus apesar de nossas quedas. Pensem nas palavras que Jesus dirigiu a Pedro às margens do lago de Tiberíades após a ressurreição: "Tu me amas mais do que estes?". Por três vezes -- tantas quantas foram as negações -- Pedro confirma seu amor, e por três vezes Jesus lhe confia seu rebanho. É uma história de redenção, de segunda chance, de amor que supera o fracasso. Enquanto tocamos ou beijamos este pé desgastado, nos inserimos em uma cadeia ininterrupta de peregrinos que, através deste gesto simples, expressaram sua conexão com a Igreja universal e seu desejo de caminhar nas pegadas dos santos. Como disse o Papa Bento XVI: "A fé não é uma teoria, mas um encontro com uma Pessoa". Aqui, através deste antigo bronze, muitos peregrinos sentem que encontram pessoalmente o humilde pescador da Galileia que se tornou o príncipe dos apóstolos. Agora, prossigamos nosso caminho em direção ao centro da Basílica, onde nos aguarda uma das maravilhas mais extraordinárias deste lugar sagrado: o Baldaquino de Bernini, que se eleva majestoso sobre o altar papal e o túmulo de São Pedro. Sigamos pela nave central, deixando-nos guiar pelas colunas torcidas desta obra-prima barroca que já se vislumbra à nossa frente.
O Baldacchino de Bernin
O Baldacchino de Bernin
Levantem o olhar para esta imponente estrutura com quase 30 metros de altura: o Baldaquino de Bernini representa uma das mais extraordinárias obras-primas do barroco e o ponto focal da Basílica. Realizado entre 1624 e 1633 sob o pontificado de Urbano VIII, o baldaquino marca com precisão o lugar mais sagrado do edifício: o túmulo do apóstolo Pedro, sobre o qual se ergue o altar papal, onde apenas o Pontífice pode celebrar a Missa. As quatro colunas torcidas, inspiradas nas do antigo templo de Salomão, são revestidas de bronze e decoradas com ramos de oliveira e louro que se entrelaçam em um movimento ascendente. Observem atentamente os detalhes: abelhas, emblema da família Barberini à qual pertencia o Papa Urbano VIII, e putti (anjinhos) que parecem brincar entre a folhagem. No topo, anjos dourados sustentam uma esfera e uma cruz, símbolos do poder universal de Cristo. Uma história controversa cerca a realização desta obra. Para obter o bronze necessário, o Papa Urbano VIII mandou remover as antigas vigas de bronze do pórtico do Panteão, provocando a famosa piada romana: "Quod non fecerunt barbari, fecerunt Barberini" (O que não fizeram os bárbaros, fizeram os Barberini). Este anedoto nos lembra como, na história da Igreja, espiritualidade e política, arte e poder, frequentemente se entrelaçaram de maneiras complexas. O baldaquino não é apenas uma obra-prima artística, mas também um elemento litúrgico de profundo significado. Ele remete aos cibórios das antigas basílicas cristãs, mas também ao véu do templo que se rasgou na morte de Cristo, simbolizando o novo e direto acesso a Deus possibilitado pelo sacrifício de Jesus. Este baldaquino monumental cria uma ligação visual entre o túmulo do apóstolo no subsolo e a cúpula de Michelangelo que se abre para o céu, ilustrando visualmente o vínculo entre a Igreja terrena e a celestial. Observem o altar papal sob o baldaquino, também chamado de Confissão de São Pedro. A balaustrada que o circunda é adornada por 95 lâmpadas votivas sempre acesas, símbolo das orações incessantes dos fiéis. Daqui, uma dupla rampa de escadas conduz à Confissão propriamente dita, uma nicho semicircular que permite aos peregrinos se aproximarem o máximo possível do túmulo do apóstolo, situado exatamente sob o altar. Um momento de particular intensidade espiritual ocorre durante a festa dos Santos Pedro e Paulo (29 de junho), quando o Papa veste o pálio, uma faixa de lã branca com cruzes pretas que simboliza sua autoridade pastoral, e o coloca sobre a Confissão, reconhecendo simbolicamente que seu poder deriva diretamente de Pedro. Vamos nos permitir um momento de silêncio diante deste lugar sagrado. Aqui, onde Pedro deu sua vida por Cristo, onde os primeiros cristãos arriscaram tudo para vir rezar sobre seu túmulo, sentimos pulsar o coração da Igreja. Como escreveu Santo Ambrósio: "Ubi Petrus, ibi Ecclesia" (Onde está Pedro, ali está a Igreja). Agora, continuemos nossa peregrinação descendo pela dupla rampa de escadas que nos levará mais perto do túmulo do apóstolo, nosso próximo ponto de interesse. Sigamos com respeito e em silêncio este caminho que nos conduz literalmente às fundações da nossa fé.
O Túmulo de São Pedr
O Túmulo de São Pedr
Aqui estamos na Confissão, este espaço sagrado que nos aproxima o máximo possível do túmulo do apóstolo Pedro. Aqui, sob o altar papal e o baldaquino de Bernini, repousam os restos do primeiro Papa, o pescador da Galileia a quem Jesus disse: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18). Literalmente e espiritualmente, estamos sobre os alicerces da Igreja Católica. A história deste lugar é fascinante e complexa. Após o martírio de Pedro, ocorrido por volta de 64-67 d.C. durante a perseguição de Nero — crucificado de cabeça para baixo, segundo a tradição, por não se considerar digno de morrer como seu Mestre — os primeiros cristãos enterraram seu corpo neste local, então parte de uma necrópole no monte Vaticano. Apesar do perigo de perseguição, os cristãos começaram a venerar este túmulo, construindo um modesto monumento comemorativo, o chamado "troféu de Gaio", mencionado pelo historiador Eusébio de Cesareia por volta de 200 d.C. Em 324 d.C., o imperador Constantino, após legalizar o cristianismo, ordenou a construção da primeira basílica exatamente sobre este túmulo venerado, incorporando e preservando o local original. Quando, no século XVI, decidiu-se reconstruir a basílica já deteriorada, uma das principais preocupações foi justamente preservar intacto o túmulo do apóstolo. Somente no século XX, sob o pontificado de Pio XII, foram realizadas escavações arqueológicas científicas que, entre 1939 e 1949, trouxeram à luz a antiga necrópole romana e confirmaram a presença de restos humanos compatíveis com os de um homem idoso, envoltos em um precioso tecido de púrpura e ouro, exatamente sob o altar-mor. Em 1968, Paulo VI anunciou oficialmente que as relíquias de São Pedro haviam sido identificadas com razoável certeza. Observem a nicho da Confissão, revestida de mármores preciosos e dominada pela estátua de Pio VI em oração, obra de Antonio Canova. Notem também o pálio, a estreita prateleira em frente à nicho onde são conservados em uma urna de bronze dourado os pálio, as estolas de lã branca com cruzes pretas que o Papa impõe aos arcebispos metropolitanos como sinal de sua autoridade pastoral e da comunhão com a Sé de Pedro. Um anedota comovente envolve o Papa João Paulo II: durante sua primeira visita ao túmulo de Pedro após a eleição ao trono pontifício, ajoelhou-se aqui em prolongada oração. Quando lhe perguntaram o que sentiu naquele momento, ele respondeu: "Um senso de inaudita responsabilidade e de profunda indignidade." Também o Papa Francisco, logo após sua eleição, quis descer para rezar neste local, testemunhando o vínculo espiritual que une cada sucessor de Pedro ao primeiro dos apóstolos. Neste lugar sagrado, tomemos um momento para refletir sobre o significado do martírio e do testemunho. Pedro, com todas as suas fragilidades humanas e suas dúvidas, encontrou finalmente a coragem de dar a vida por Cristo. Seu túmulo nos lembra que a fé não é uma ideia abstrata, mas um encontro pessoal com Jesus que pode transformar até a pessoa mais imperfeita em uma "rocha" sobre a qual construir. Agora, dirijamo-nos para a parte de trás da basílica, onde nos aguarda outra maravilha: o Altar da Cátedra de São Pedro, dominado pela extraordinária Glória de Bernini. Sigamos pelo corredor central, avançando em direção à abside da basílica.
O Altar da Cátedra de São Pedro
O Altar da Cátedra de São Pedro
Estamos agora diante de uma das visões mais espetaculares de toda a basílica: o Altar da Cátedra de São Pedro, obra-prima de Bernini realizada entre 1657 e 1666. Levante o olhar para admirar a imponente composição que domina a abside: uma gigantesca cátedra de bronze dourado, sustentada por quatro Doutores da Igreja (dois do Oriente: Atanásio e João Crisóstomo, e dois do Ocidente: Ambrósio e Agostinho), sobreposta pela extraordinária "Glória", uma janela oval cercada por nuvens douradas e raios de luz, com anjos e querubins que voam ao redor da pomba do Espírito Santo em vidro alabastrino. Esta monumental composição encerra um profundo significado teológico. A cátedra (trono) simboliza a autoridade magisterial do Papa como sucessor de Pedro. Não se trata simplesmente de um assento físico, mas do poder de ensino e guia espiritual confiado por Cristo a Pedro e seus sucessores. Os quatro Doutores da Igreja que a sustentam representam a tradição e a sabedoria teológica que apoiam o magistério papal. Sua representação -- dois santos ocidentais e dois orientais -- simboliza também a universalidade da Igreja, que abrange Oriente e Ocidente. A extraordinária "Glória" que sobrepõe a cátedra é uma das realizações mais ousadas de Bernini: utilizando a janela absidal como fonte de luz natural, o artista cria a ilusão de que o Espírito Santo, representado pela pomba translúcida, é a própria fonte de luz que ilumina a cátedra. Este efeito teatral não é puro virtuosismo artístico, mas uma poderosa metáfora visual da inspiração divina que guia o magistério da Igreja. Uma curiosidade pouco conhecida: dentro da cátedra de bronze é conservada aquela que a tradição identifica como a cátedra de madeira efetivamente usada por São Pedro, uma antiga cadeira decorada com marfins que retratam os trabalhos de Hércules. Na realidade, estudos arqueológicos indicam que provavelmente se trata de um trono doado ao Papa Carlos, o Calvo, em 875, mas isso não diminui o valor simbólico do objeto, que representa a continuidade do ministério petrino. Diante deste altar, reflita sobre o significado do magistério na Igreja Católica. Como disse o Papa Bento XVI: "O Papa não é um soberano absoluto cujo pensamento e vontade são lei. Ao contrário, o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra". A cátedra não é símbolo de poder mundano, mas de serviço; não de dominação, mas de guia pastoral. Durante as celebrações solenes, em particular na festa da Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro), este espaço se enche de luz e cor, com paramentos litúrgicos que resplandecem sob os raios dourados da Glória. É um dos momentos em que a fusão de arte, liturgia e espiritualidade atinge seu ápice na basílica. Deste ponto privilegiado, voltemos agora nosso olhar para a esquerda, onde se encontra uma das capelas mais significativas da basílica: a Capela do Santíssimo Sacramento, lugar de oração e adoração contínua. Caminhemos com respeito para este espaço sagrado, lembrando que é uma área dedicada particularmente à oração silenciosa.
A Capela do Santíssimo Sacrament
A Capela do Santíssimo Sacrament
Agora entramos em um dos lugares mais intensamente espirituais da basílica: a Capela do Santíssimo Sacramento. Aqui, ao contrário de outras áreas, reina uma atmosfera de particular recolhimento. Note na entrada a indicação que convida ao silêncio: este é, de fato, um lugar dedicado especificamente à oração e adoração. A capela, projetada por Carlo Maderno no início do século XVII, é fechada por uma refinada grade de bronze dourado. No interior, a atenção é imediatamente capturada pelo imponente tabernáculo em forma de pequeno templo, obra de Bernini, inspirado no Tempietto de San Pietro in Montorio de Bramante. Este tabernáculo, revestido de lápis-lazúli e bronze dourado, guarda a Eucaristia, a presença real de Cristo sob as espécies do pão consagrado. Acima do altar encontra-se uma obra-prima pictórica frequentemente negligenciada pelos visitantes apressados: a "Santíssima Trindade" de Pietro da Cortona, que representa no alto a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e embaixo os santos que tiveram uma devoção particular ao Santíssimo Sacramento, entre eles São Tomás de Aquino, autor de orações eucarísticas ainda em uso, e São Francisco de Assis, conhecido por seu profundo respeito pela Eucaristia. À direita da capela pode-se admirar a preciosa urna de bronze dourado que guarda os restos de São João Crisóstomo, um dos grandes Padres da Igreja oriental, famoso por suas pregações sobre a Eucaristia. Sua presença aqui não é casual: seus escritos sobre a Eucaristia estão entre os mais profundos da tradição cristã. Um fato pouco conhecido sobre esta capela: durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), muitos padres conciliares vinham aqui para rezar antes das sessões de trabalho, pedindo luz e orientação ao Espírito Santo. O próprio Papa João XXIII fazia frequentes visitas privadas a esta capela, envolto no silêncio e na oração. A lâmpada vermelha que arde continuamente ao lado do tabernáculo é um sinal visível da presença de Cristo na Eucaristia. Na tradição católica, a Eucaristia não é simplesmente um símbolo, mas a presença real, corpórea de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados. Como disse São João Paulo II: "A Igreja vive da Eucaristia", e esta capela é o coração eucarístico da basílica. Neste espaço sagrado, reserve um momento de silêncio para uma oração pessoal. A adoração eucarística é uma forma de oração contemplativa particularmente poderosa, na qual o fiel se coloca simplesmente na presença de Cristo, em um diálogo silencioso de coração a coração. Como escreveu Santa Teresa de Calcutá: "O tempo passado na presença do Santíssimo Sacramento é o tempo melhor gasto na terra". Saindo da capela, dirigimos nosso caminho para a nave esquerda, onde nos aguarda outra obra-prima de profundo significado espiritual: o Monumento fúnebre do Papa Alexandre VII, outra obra magistral de Bernini. Caminhemos com respeito, tendo em mente que estamos nos afastando de um dos lugares mais sagrados da basílica.
O Monumento funerário do Papa Alexandre VII
O Monumento funerário do Papa Alexandre VII
Vamos parar agora diante deste extraordinário monumento funerário, uma das últimas obras-primas de Gian Lorenzo Bernini, realizado quando o artista já tinha 80 anos. O monumento a Alexandre VII Chigi (pontificado 1655-1667) é uma poderosa meditação visual sobre a morte, o tempo e a esperança cristã da ressurreição. Observem a composição dramática: acima de uma porta - uma verdadeira porta de serviço que Bernini incorporou genialmente na estrutura - ergue-se um dossel de jaspe siciliano (a pedra vermelha), do qual desce um manto de alabastro amarelo e mármore negro. Acima do manto, está ajoelhado o Papa Alexandre VII em oração, voltado para o altar. Aos seus pés, quatro figuras femininas representam as virtudes cardeais: a Caridade com uma criança, a Prudência com o espelho, a Justiça com a balança, e uma figura velada que simboliza a Verdade. Mas o elemento mais surpreendente e teatral é o esqueleto alado em bronze dourado que emerge da porta abaixo, levantando um manto de mármore e segurando uma ampulheta, símbolo do tempo que passa inexoravelmente. Este "Gênio da Morte" - como Bernini o chamava - olha para cima, em direção ao Papa em oração, criando uma extraordinária tensão dramática entre a transitoriedade da vida terrena e a esperança na vida eterna. Um anedota curiosa: a porta sob o monumento era efetivamente utilizada pelo pessoal da basílica, e Bernini teve que travar uma verdadeira batalha com os responsáveis pela fábrica de São Pedro para poder incorporá-la em sua composição. No final, encontrou uma solução genial, transformando o que poderia ser um elemento perturbador em um elemento central de sua mensagem artística e espiritual. O Papa Alexandre VII Chigi era um homem de profunda espiritualidade e grande cultura. Durante seu pontificado, promoveu importantes obras artísticas em Roma, incluindo o colunato de São Pedro, também confiado a Bernini. Era também muito devoto à Virgem Maria e restaurou numerosas igrejas marianas. Um detalhe comovente: em seu leito de morte, pediu que lhe colocassem sobre o peito uma pequena imagem da Virgem que sempre carregou consigo. O monumento nos convida a uma reflexão profunda sobre o significado cristão da morte. Como dizia Santo Agostinho, "A morte não é nada, apenas atravessei a porta para o outro quarto". O contraste entre o esqueleto ameaçador e a serena oração do Pontífice ilustra visualmente a esperança cristã de que a morte não tem a última palavra. A inscrição latina no monumento diz: "Humilitatem tempora praeeunt" (A humildade precede a glória), lembrando-nos que a verdadeira grandeza consiste no serviço humilde, seguindo o exemplo de Cristo. Agora, prossigamos nosso caminho em direção à nave esquerda, onde encontraremos outro importante monumento funerário: o de Clemente XIII, obra do grande escultor neoclássico Antonio Canova. Enquanto caminhamos, admiremos as proporções perfeitas da basílica, onde cada elemento arquitetônico foi pensado para elevar o espírito ao divino.
O Monumento ao Papa Clemente XIII
O Monumento ao Papa Clemente XIII
Aqui diante de nós está o monumental túmulo do Papa Clemente XIII, obra-prima de Antonio Canova realizada entre 1783 e 1792. Ao contrário do teatral barroco de Bernini, aqui encontramos a beleza serena e comedida do neoclassicismo, que marca uma profunda mudança no gosto artístico e na sensibilidade espiritual. Observem a composição equilibrada e harmoniosa: no centro, o Papa está ajoelhado em oração, com uma expressão de profunda humildade e devoção. Aos seus lados, duas figuras femininas representam o Gênio da Morte, com a tocha invertida, símbolo da vida que se apaga, e a Religião, que segura a cruz e parece consolar o pontífice. Na base do monumento, dois magníficos leões — um vigilante e o outro adormecido — simbolizam a força e a vigilância, mas também a paz que vem da fé. O Papa Clemente XIII Rezzonico (pontificado 1758-1769) viveu em um período difícil para a Igreja, marcado pelas pressões do Iluminismo e pelas tensões com as potências europeias, em particular quanto ao destino da Companhia de Jesus (os jesuítas). Apesar das enormes pressões políticas, Clemente XIII defendeu vigorosamente os jesuítas, recusando-se a suprimir a ordem como exigiam várias cortes europeias. Era conhecido por sua profunda piedade pessoal e pelas longas horas passadas em oração diante do Santíssimo Sacramento. Um anedota interessante sobre a criação deste monumento: quando o sobrinho do Papa, o senador veneziano Abbondio Rezzonico, encomendou a obra ao jovem Canova, que na época ainda não era famoso, muitos na cúria romana ficaram escandalizados pela escolha de um artista pouco conhecido para um monumento tão importante. Mas o senador Rezzonico insistiu, tendo intuído o gênio de Canova, e o resultado foi tão extraordinário que lançou definitivamente a carreira do artista. Os dois leões na base do monumento são considerados entre as mais belas representações escultóricas desses animais já realizadas. Canova visitou repetidamente o zoológico de Nápoles para estudar os leões ao vivo, tentando capturar não apenas a aparência, mas também a essência deles. Uma curiosidade: esses leões são tão amados que suas patas foram polidas pelo toque de inúmeros visitantes que, ao longo dos séculos, os acariciaram como amuletos de sorte. A figura do Papa em oração nos lembra que, além do poder e das responsabilidades terrenas, todo cristão é antes de tudo uma alma diante de Deus. Como disse uma vez o próprio Clemente XIII: "O maior dever de um Papa é rezar por seu rebanho". Esta imagem de humilde devoção nos convida a refletir sobre o valor da oração em nossa vida e sobre a importância de nos colocarmos com humildade nas mãos de Deus. Vamos agora continuar nosso caminho dirigindo-nos a outra área significativa da basílica: a Capela de São Miguel Arcanjo, onde poderemos admirar a esplêndida Navicella de Giotto e aprofundar o papel dos anjos na espiritualidade católica. Caminhemos para a direita, seguindo a nave lateral.
A Capela de São Miguel Arcanj
A Capela de São Miguel Arcanj
Chegamos à Capela de São Miguel Arcanjo, dedicada ao chefe das milícias celestiais, aquele que na tradição cristã lidera as hostes angélicas na batalha contra o mal. Esta capela, situada na nave direita da basílica, guarda obras de arte de grande valor espiritual e artístico. O retábulo que domina a capela é um grande mosaico realizado em 1756 por Pietro Paolo Cristofari, baseado em uma pintura de Guido Reni que se encontra na Igreja de Santa Maria della Concezione em Roma. A imagem representa São Miguel Arcanjo no ato de derrotar Satanás, realizando as palavras do Apocalipse: "E houve uma guerra no céu: Miguel e seus anjos lutavam contra o dragão" (Ap 12,7). Observem a imponente figura do Arcanjo, com a espada erguida e o escudo com a inscrição latina "Quis ut Deus?" (Quem é como Deus?), tradução literal do nome hebraico "Mi-ka-El". Esta pergunta retórica é um poderoso chamado à transcendência e unicidade de Deus, contra toda forma de idolatria ou de autodeificação do homem. Na parede lateral da capela, não percam o mosaico da "Navicella", cópia de uma obra original de Giotto realizada por volta de 1305-1313. O original, um grande mosaico que decorava o átrio da antiga basílica constantiniana, representava Pedro caminhando sobre as águas em direção a Jesus, enquanto os outros apóstolos observam do barco sacudido pela tempestade. Infelizmente, o original foi gravemente danificado durante as obras de demolição da velha basílica, e o que vemos hoje é uma reconstrução que conserva apenas em parte a composição giottesca. Uma curiosidade: na tradição cristã, São Miguel Arcanjo tem quatro papéis principais: combater Satanás, acompanhar as almas dos falecidos em sua jornada ultraterrena, ser o grande defensor do povo de Deus, e finalmente, levar as orações dos fiéis diante do trono do Altíssimo. Por isso, muitos peregrinos deixam nesta capela bilhetinhos com orações e intenções, confiando na intercessão do Arcanjo. Uma oração muito antiga dedicada a São Miguel diz: "São Miguel Arcanjo, defendei-nos na batalha, contra as malícias e as ciladas do demônio sede nosso auxílio". Esta invocação, composta pelo Papa Leão XIII após uma visão inquietante durante uma Missa, foi recitada por décadas ao final de cada celebração eucarística e recentemente redescoberta na devoção popular. A figura de São Miguel nos lembra que a vida cristã é também uma batalha espiritual contra as forças do mal, tanto aquelas externas a nós quanto as que operam em nosso coração. Como disse São Paulo: "Nossa luta não é contra criaturas feitas de sangue e carne, mas contra os Principados e as Potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal que habitam nas regiões celestes" (Ef 6,12). Agora, deixemos esta capela e dirijamo-nos a outro monumento significativo: o Monumento fúnebre do Papa Pio VII, obra de Thorvaldsen, que nos fala de um período difícil mas importante da história da Igreja. Sigamos pela nave lateral em direção à parte anterior da basílica.
O Monumento funerário do Papa Pio VII
O Monumento funerário do Papa Pio VII
Vamos parar diante deste monumento funerário, obra do escultor dinamarquês Bertel Thorvaldsen, realizado entre 1823 e 1831. É um dos poucos monumentos na basílica criado por um artista não católico -- Thorvaldsen era, de fato, luterano. A escolha de confiar esta obra a um artista protestante foi um sinal da abertura cultural da Igreja após as tensões do período napoleônico. O monumento comemora o Papa Pio VII Chiaramonti (pontificado 1800-1823), cuja vida foi marcada pelo dramático confronto com Napoleão Bonaparte. Observem a composição sóbria e elegante: o Papa está sentado no trono pontifício, com a tiara (a coroa papal), no ato de impartir a bênção. Aos seus lados, duas figuras alegóricas representam a Sabedoria (à direita, com um livro aberto) e a Fortaleza (à esquerda, com um leão), as duas virtudes que caracterizaram o difícil pontificado de Pio VII. A história deste Papa é extraordinária e comovente. Eleito no conclave de Veneza de 1800, em uma Europa abalada pelas guerras napoleônicas, Pio VII tentou inicialmente estabelecer relações diplomáticas com Napoleão, assinando em 1801 um Concordato que restabelecia a prática católica na França após os anos da Revolução. Mas logo as relações se deterioraram: em 1809, Napoleão ocupou Roma e prendeu o Papa, que permaneceu prisioneiro por cinco anos, primeiro em Savona e depois em Fontainebleau. Um anedota tocante diz respeito aos dias de cativeiro: privado de seus conselheiros, dos livros, até mesmo do papel para escrever, o Papa passava longas horas em oração. Quando lhe foi proposto ceder às exigências de Napoleão em troca da liberdade, ele respondeu simplesmente: "Não posso, não devo, não quero". Esta firmeza, unida a uma extraordinária mansidão de espírito, lhe rendeu o respeito até mesmo de seus carcereiros. Após a queda de Napoleão, Pio VII retornou a Roma em 1814, acolhido triunfalmente pela população. Com grande magnanimidade, ofereceu refúgio em Roma aos membros da família Bonaparte, incluindo a mãe de Napoleão, quando todos lhes viraram as costas. Quando lhe perguntaram o motivo de tanta generosidade para com aqueles que o haviam perseguido, ele respondeu: "Com o que ele fez pela religião, apesar das perseguições, podemos perdoar-lhe todo o resto." Este monumento, em sua clássica compostura, nos fala de dignidade no sofrimento, de firmeza nas provas, de perdão aos inimigos -- valores profundamente evangélicos, encarnados em um período histórico tumultuado. Como escreveu o cardeal Consalvi, fiel secretário de Estado de Pio VII: "Sua arma mais poderosa foi a paciência, e sua estratégia mais eficaz o perdão." Agora, vamos nos dirigir a um dos lugares mais sugestivos e menos conhecidos da basílica: as Grutas Vaticanas, onde estão sepultados numerosos papas e onde poderemos nos aproximar ainda mais do túmulo de São Pedro. Sigamos as indicações para a escada que conduz ao nível inferior da basílica, lembrando que estamos prestes a entrar em um lugar de particular sacralidade e recolhimento.
As Grutas do Vatican
As Grutas do Vatican
Desçamos agora por esta escada que nos leva às Grutas do Vaticano, um lugar de extraordinária importância espiritual e histórica, onde a história da Igreja se torna tangível através dos túmulos de numerosos pontífices. Este espaço semicircular, situado entre o piso da atual basílica e o da antiga basílica constantiniana, guarda os restos mortais de 91 papas, de São Pedro até São João Paulo II, formando uma cadeia ininterrupta de sucessores que atravessa dois mil anos de história. As Grutas são divididas em Grutas Velhas e Grutas Novas. As Grutas Velhas constituem a parte central, diretamente sob a nave principal da basílica. Aqui podemos ver os túmulos de importantes pontífices do século XX: Paulo VI, o papa que concluiu o Concílio Vaticano II; João Paulo I, que reinou apenas 33 dias; e São João Paulo II, cujo túmulo simples, mas constantemente visitado por peregrinos de todo o mundo, está próximo ao de São Pedro. Observem o túmulo de João Paulo II: uma laje de mármore branco com a simples inscrição "Ioannes Paulus PP. II" e as datas de seu pontificado. Nenhum monumento elaborado, nenhuma decoração suntuosa — apenas a simplicidade que caracterizou sua vida pessoal, apesar de seu extraordinário impacto na Igreja e no mundo. Durante seu funeral, os fiéis gritavam "Santo subito!", e de fato ele foi canonizado em tempo recorde, apenas nove anos após sua morte. Prosseguindo nas Grutas Novas, descobrimos um verdadeiro museu subterrâneo, com artefatos provenientes da antiga basílica constantiniana e da necrópole romana que se encontrava neste mesmo local. Particularmente tocante é a Capela dos Santos Pedro e Paulo, onde são conservados fragmentos do sarcófago original de São Pedro. Um anedota pouco conhecida diz respeito ao túmulo de São João XXIII. Quando seu corpo foi exumado em 2000, por ocasião de sua beatificação, foi encontrado incorrupto, conservado de forma extraordinária apesar de terem se passado 37 anos desde sua morte. Este evento, que muitos consideram milagroso, aumentou ainda mais a devoção a este amado pontífice, conhecido como o "Papa bom". Nas Grutas do Vaticano respira-se uma atmosfera única, onde a história, a arte e a fé se entrelaçam de forma indissolúvel. Como escreveu um historiador da arte: "Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, percebe-se a continuidade viva da Igreja, fundada sobre a rocha de Pedro e guiada por seus sucessores através dos séculos." Antes de subirmos, tomemos um momento de silêncio e recolhimento. Neste lugar, onde repousam tantos santos e grandes almas que guiaram a Igreja, podemos sentir a força da comunhão dos santos, aquele vínculo misterioso mas real que une todos os crentes, vivos e falecidos, em um único Corpo de Cristo. Como diz a Carta aos Hebreus: "Estamos rodeados por uma tão grande nuvem de testemunhas" (Hb 12,1). Agora, subamos e dirijamo-nos a outra área significativa da basílica: a Capela do Batismo, onde admiraremos a bela pia batismal e refletiremos sobre o sacramento que nos introduziu na vida cristã. Sigamos as indicações para retornar ao nível principal da basílica.
A Capela do Batismo
A Capela do Batismo
Vamos agora entrar na Capela do Batismo, situada na nave esquerda da basílica. Este espaço sagrado, dedicado ao primeiro dos sacramentos, nos convida a refletir sobre nossas raízes cristãs e o significado profundo do batismo na vida de fé. O centro da capela é ocupado pela imponente pia batismal, realizada utilizando a tampa do sarcófago do imperador romano Otão II, falecido em Roma no ano 983 d.C. Este sarcófago de pórfiro vermelho, uma pedra imperial na antiguidade, foi transformado em pia batismal em 1698 durante o pontificado de Inocêncio XII. A sobreposição de um elemento funerário imperial com o sacramento que concede a nova vida em Cristo é rica em significado teológico: do poder terreno ao Reino de Deus, da morte à nova vida. Acima da pia eleva-se uma cúpula dourada sustentada por quatro colunas de mármore negro, e no centro da cúpula pode-se admirar a escultura do Batismo de Cristo, obra de Carlo Fontana. Observem como João Batista derrama a água sobre a cabeça de Jesus, enquanto a pomba do Espírito Santo desce do alto, recriando visualmente a cena evangélica em que "os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descer como uma pomba" (Mt 3,16). O retábulo da capela é um magnífico mosaico que reproduz o "Batismo de Cristo" de Carlo Maratta. O mosaico, realizado entre 1722 e 1735, mostra não apenas o batismo de Jesus, mas também anjos que assistem à cena, simbolizando a presença do céu que se abre sobre o rio Jordão. Uma curiosidade significativa: esta capela foi testemunha de inúmeros batismos ao longo dos séculos, incluindo os de filhos de monarcas e nobres europeus. Mas talvez o momento mais tocante tenha ocorrido em 1994, durante o Ano Internacional da Família, quando o Papa João Paulo II batizou pessoalmente várias crianças de diversas partes do mundo, simbolizando a universalidade da Igreja e a importância da família como "igreja doméstica". O batismo nos lembra de nossas origens espirituais e nos convida a refletir sobre nossa identidade mais profunda. Como escreveu São Paulo: "Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Rm 6,3-4). Em uma época em que muitos cristãos parecem ter esquecido a radicalidade do seu batismo, esta capela nos convida a redescobrir a graça batismal e a viver coerentemente com os compromissos que assumimos, ou que foram assumidos por nós por nossos pais e padrinhos. Como disse o Papa Francisco: "O batismo não é uma formalidade, é um ato que toca profundamente a nossa existência". Agora, prossigamos nossa peregrinação dirigindo-nos à Cúpula de São Pedro, o último ponto do nosso itinerário, de onde poderemos desfrutar de uma vista extraordinária sobre a cidade eterna e compreender melhor o significado simbólico desta maravilha arquitetônica que se eleva sobre a basílica.
A Cúpula de São Pedro
A Cúpula de São Pedro
Chegamos ao último ponto de nossa peregrinação: a majestosa Cúpula de São Pedro, uma das mais extraordinárias obras-primas arquitetônicas do Renascimento e símbolo universalmente reconhecido da Cidade do Vaticano. Projetada pelo gênio de Michelangelo Buonarroti quando ele já tinha 71 anos, a cúpula foi concluída após sua morte por Giacomo della Porta, que modificou ligeiramente seu perfil, tornando-o mais esbelto. A subida à cúpula é uma experiência tanto física quanto espiritual. Temos duas opções: podemos pegar o elevador até o terraço da basílica e depois subir 320 degraus, ou enfrentar toda a subida de 551 degraus a pé. Qualquer que seja sua escolha, a recompensa será uma vista incomparável de Roma e uma compreensão mais profunda do gênio arquitetônico que criou esta maravilha. Durante a subida, observe como a escada se torna progressivamente mais estreita e inclinada, seguindo a curvatura da cúpula. As paredes inclinadas criam uma sensação quase desorientadora, que alguns interpretam como uma metáfora do caminho espiritual: quanto mais nos aproximamos do céu, mais o caminho se torna estreito e desafiador, mas a recompensa final é de beleza incomparável. Chegando ao terraço intermediário, podemos admirar por dentro o mosaico da cúpula, com sua inscrição em letras de quase dois metros de altura que corre ao redor: "TU ES PETRUS ET SUPER HANC PETRAM AEDIFICABO ECCLESIAM MEAM ET TIBI DABO CLAVES REGNI CAELORUM" (Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e a ti darei as chaves do reino dos céus) - as palavras de Jesus que fundamentam o primado petrino e são literalmente o fundamento teológico de toda a basílica. Uma curiosidade fascinante: durante as obras de construção da cúpula, os arquitetos enfrentaram um problema aparentemente insolúvel. A estrutura mostrava sinais de cedimento e temia-se um colapso catastrófico. O Papa Sisto V convocou um concurso de ideias para encontrar uma solução. Foram os matemáticos que propuseram adicionar correntes de ferro dentro da alvenaria, uma solução inovadora que salvou a cúpula e que ainda está em funcionamento hoje, invisível aos visitantes. Finalmente, chegamos à lanterna no topo, de onde se abre uma vista de 360 graus sobre Roma, a cidade eterna. Desta altura de 137 metros, podemos ver o Tibre serpenteando pela cidade, as sete colinas, as inúmeras cúpulas das igrejas, o Coliseu ao longe. Em um dia claro, o olhar pode se estender até os Montes Albanos e as montanhas da Sabina, criando uma sensação de conexão com a terra que nutriu a fé cristã por dois mil anos. Esta vista privilegiada nos oferece uma perspectiva única não apenas sobre a cidade, mas sobre nossa própria vida. Como escreveu uma vez o Papa Francisco: "Às vezes precisamos olhar as coisas de cima para realmente compreendê-las". Esta altura física torna-se uma metáfora de uma elevação espiritual, de um olhar que busca ver o mundo com os olhos de Deus, em sua totalidade e beleza. Enquanto começamos a descida, levamos conosco não apenas as imagens desta vista extraordinária, mas também a consciência de termos tocado, nesta peregrinação, o coração pulsante da cristandade, caminhando literalmente nas pegadas dos santos que nos precederam no caminho da fé.
Conclusão
Conclusão
Nossa peregrinação "Nos Passos dos Santos" chega ao fim. Nestes noventa minutos, atravessamos não apenas um espaço físico extraordinário, mas um verdadeiro itinerário espiritual através de dois mil anos de fé cristã. Do túmulo de Pedro, o pescador da Galileia a quem Cristo confiou as chaves do Reino, até a altura vertiginosa da cúpula que se lança em direção ao céu, percorremos um caminho que é ao mesmo tempo histórico, artístico e profundamente espiritual. Cada pedra, cada mosaico, cada escultura desta basílica conta uma história de fé, de sacrifício, de devoção. Os santos que encontramos ao longo do percurso — Pedro e Paulo, os Padres da Igreja, os Papas que se sucederam no trono pontifício — não são figuras remotas do passado, mas testemunhas vivas que continuam a nos falar através de suas obras, suas palavras, seu exemplo. A peregrinação jubilar que vocês realizaram hoje não é apenas um momento isolado, mas o início ou a continuação de um caminho mais amplo. O Ano Santo é um convite para renovar nossa vida, redescobrir a beleza da fé, reconciliar-se com Deus e com os irmãos. Assim como a Porta Santa que vocês atravessaram, cada experiência deste ano jubilar é um limiar que nos convida a passar das trevas para a luz, do pecado para a graça, do individualismo para a comunhão. Antes de nos despedirmos, lembrem-se de que qualquer pessoa que tenha perguntas ou curiosidades pode ativar a qualquer momento um guia turístico virtual baseado em inteligência artificial, que poderá aprofundar qualquer aspecto de nossa visita ou sugerir outros itinerários na Cidade Eterna. Levamos conosco, ao término desta peregrinação, não apenas lembranças e imagens, mas sobretudo uma renovada consciência de nossa pertença à grande família da Igreja, uma herança de fé que atravessa os séculos e que somos chamados a viver com alegria e testemunhar com coragem no mundo contemporâneo.